Em 2020, Joyce Ribeiro estendeu uma faixa em uma rua de São Gonçalo do Sapucaí com a frase: “Pensar nela, em oposição a pensar em não pensar nela”. A ação aconteceu na Vila de Fátima, bairro onde a artista nasceu e viveu por 28 anos. Naquele período, Joyce caminhava pela cidade e anotava memórias que surgiam durante o trajeto. No dia seguinte, costurava essas lembranças com ficção, escrita e novas imagens do território.
A frase da faixa, hoje uma das obras que integram a exposição Rio Que Grita, marcou também uma decisão: olhar novamente para a cidade de origem e transformar esse retorno em pesquisa artística. A mostra terá abertura no dia 11 de julho de 2026, das 10h às 13h, em São Gonçalo do Sapucaí, no Sul de Minas Gerais, com programação até 9 de agosto.
A exposição reúne fotografia, vídeo, objeto, cerâmica, escrita, contação de histórias e ações urbanas. As obras estarão espalhadas por diferentes pontos da cidade, com oficinas, roda de conversa, ativações de percurso e distribuição gratuita de mapas interativos. A mostra nasce do Projeto Bageira, pesquisa desenvolvida por Joyce ao longo dos últimos seis anos sobre os modos de relação, ação e convívio no interior.
Artista, educadora e historiadora, Joyce apresenta sua primeira exposição individual na cidade natal, após mais de uma década de atuação entre São Paulo e Minas Gerais. Em sua produção, causos caipiras, memórias orais, objetos do cotidiano e histórias locais entram em diálogo com a arte contemporânea. “Não me interessa separar o que é lembrança, invenção ou história, mas compreender como essas dimensões produzem juntas uma forma de conhecimento”, afirma Joyce Ribeiro.
Uma artista entre dois territórios
Joyce Ribeiro abriu seu primeiro ateliê aos 14 anos, em São Gonçalo do Sapucaí, e começou a lecionar aos 17. Aos 28, mudou-se para São Paulo para estudar artes visuais. A passagem pela capital ampliou o contato com instituições, escolas e espaços de formação, mas também mudou a forma como ela passou a olhar para a cidade de origem.
Foto: Acervo pessoal de Joyce Ribeiro
“As estruturas do sistema colonial são construídas para que a gente reconheça o fora como centro, como desenvolvimento, e o peso desse deslocamento atravessa minha produção de forma estrutural. Trata-se de uma mudança de percepção sobre o que é centro, margem e pertencimento”, diz.
Ao retornar para São Gonçalo do Sapucaí, a artista passou a olhar para a cidade com as ferramentas adquiridas no contato com a arte contemporânea, mas também com perguntas que vinham da própria experiência de ter saído, estudado fora e voltado. A pesquisa nasce desse encontro entre formação artística, memória pessoal e vida no interior.
“O interior passa a aparecer como um campo potente de produção de sentido, com seus próprios modos de fazer, narrar e existir, onde a narrativa oral, o causo caipira, se afirmam como forma legítima de construção de conhecimento, memória e imaginação”, afirma.
Enrico Rocha, artista e analista, escreve no texto de apresentação da exposição, que nesse movimento entre a cidade pequena e o maior centro urbano do país, Joyce descobriu que migrar também pode tornar alguém estrangeiro no próprio lugar. Essa estranheza, segundo ele, tornou-se matéria de poesia.
A árvore que virou canoa
FOTO: Acervo pessoal de Joyce Ribeiro
A exposição tem origem simbólica na Bageira, árvore que marcou o imaginário de São Gonçalo do Sapucaí. Localizada na região central da cidade, próxima à igreja matriz, ela foi abatida em 1956, mas continuou presente nas histórias, lembranças e referências dos moradores. No projeto, Joyce fabula um novo destino para essa árvore: ao morrer, ela teria virado canoa para tocar o rio Sapucaí.
“Bageira representa justamente a permanência intangível da história e da memória, ela guarda o imaginário regional de uma comunidade sobre o seu território”, afirma a artista.
Para Joyce, a Bageira funciona como corpo narrativo, imagem de continuidade e método de criação. Assim como a árvore muda de forma sem desaparecer, o projeto propõe transformações entre história e fabulação, território e linguagem, memória e criação artística.
“Nesse sentido, a Bageira não é apenas um elemento do passado, mas um corpo que continua operando no presente como narrativa, como referência e como forma de pertencimento”, diz.
O título da exposição também nasce do território. Sapucaí, palavra de origem tupi-guarani, pode ser traduzida como “rio que grita” ou “rio que canta”, em referência aos sons produzidos pelas cumbucas da árvore sapucaia ao caírem na água. Essa imagem conduz parte da mostra, associando o rio às ideias de movimento, percurso, fronteira e retorno.
O causo como forma de conhecimento
Em Rio Que Grita, Joyce Ribeiro parte dos causos caipiras, mitos, lendas, boatos e histórias de São Gonçalo do Sapucaí para criar aproximações entre arte contemporânea e historiografia. Formada em História pela UEMG e pós-graduada em História, Sociedade e Cultura pela PUC-SP, a artista investiga aquilo que a história oficial muitas vezes não alcança: vivências, afetos, conflitos, crenças, estratégias de sobrevivência e modos de perceber o mundo transmitidos pela oralidade.
“As narrativas presentes nos causos caipiras carregam camadas de experiência que muitas vezes escapam à historiografia oficial. Elas não estão comprometidas com uma linearidade ou com a validação institucional dos fatos, mas com a transmissão de vivências, afetos, tensões e formas de perceber o mundo”, afirma.
Essas histórias, segundo Joyce, revelam formas de existência que sustentam a vida em comunidade: relações de trabalho, conflitos, violências silenciosas, estratégias de sobrevivência, crenças e imaginários.
FOTO: Acervo pessoal de Joyce Ribeiro
“Me interessa construir pontes não para traduzir essas narrativas ao modelo oficial, mas para tensioná-lo, reconhecendo nos causos caipiras uma forma legítima de produzir história”, diz.
Para o arquiteto, artista visual e diretor do MARP – Museu de Arte de Ribeirão Preto, Nilton Campos, curador da exposição, o trabalho de Joyce se insere em uma discussão própria da arte contemporânea, ao olhar para a realidade, a rotina e os modos de vida que formam uma comunidade. “A arte contemporânea tem, em sua essência, a proposta de discutir a própria realidade e o cotidiano em que vivemos”, afirma.
O curador, destaca que, ao trazer memórias, encontros e histórias contadas pelos próprios participantes, o projeto faz emergir o universo caipira e a memória oral como matéria artística. “Essas histórias também se transformam de acordo com quem as conta. É muito interessante observar tudo isso mesclado”, diz.
A contação de histórias, nesse sentido, vai além do tema. Ela estrutura o modo como as obras existem, circulam e se transformam. Cada relato muda conforme quem conta, onde conta e para quem conta. É nessa variação que Joyce aproxima a oralidade das práticas da arte contemporânea e desloca a ideia de obra como algo fixo ou encerrado em um objeto.
A cidade como parte da obra
Os trabalhos de Rio Que Grita nascem de encontros. No Lago Piscina, antigo local de mineração transformado em parque e marcado por histórias de afogamento, Joyce realizou a ação Profundo, depositando uma boia de mergulho no lago. Moradores que inicialmente estranhavam sua presença passaram a acompanhar o processo, disponibilizaram um barco, ensinaram a artista a remar, ajudaram na gravação e permaneceram no local até o fim da ação.
Em outro trabalho, Joyce fez um trato com o caminhoneiro Reinaldo Massei, conhecido como Sr. Branco. Ele emprestou o para-barro do caminhão para que a artista pintasse a frase “Rio Que Grita” e comprometeu-se a contar, pelas estradas do país, que a frase se refere ao nome da cidade: Sapucaí, “rio que grita” ou “rio que canta”.
“Nesse gesto, a obra deixa de estar restrita ao espaço expositivo e passa a circular pelo mundo através da oralidade. A narrativa se desloca do objeto para o trânsito, do suporte físico para a transmissão oral. O trabalho, nesse sentido, não termina na sua realização: ele se prolonga na fala de outras pessoas, em novos contextos, em possíveis recontagens”, explica Joyce.
Nilton Campos, avalia que um dos pontos centrais de Rio Que Grita é a forma como a exposição ativa a cidade e suas relações. “O que mais me chamou a atenção na exposição, é que a Joyce, ao fazer essa proposição artística, ativa a própria cidade, fazendo com que os moradores repensem suas origens e suas referências no espaço urbano”, afirma. Segundo ele, os lugares são importantes, mas a força do projeto está nas pessoas envolvidas. “Os lugares são essenciais neste projeto, são diferentes pontos da cidade ativados pela exposição. No entanto, são as pessoas envolvidas que ela mobiliza e com as quais dialoga em muitos desses espaços, ativando-os de diferentes maneiras. É bonita a relação que Joyce estabelece com essas pessoas”, diz. Enrico Rocha sintetiza essa dinâmica no texto de apresentação da exposição: “A cidade participa”.
Para Joyce, os trabalhos não chegam prontos aos lugares. Eles se formam também a partir dos vínculos criados durante o processo. “Os trabalhos foram desenvolvidos a partir de tratos e acordos com diferentes pessoas, o que faz com que a obra já aconteça como resultado de uma construção compartilhada. Nesse sentido, a exposição não é apenas um momento de apresentação, mas a continuidade desse processo”.
Arte contemporânea a partir do interior
FOto: Acervo pessoal de Joyce Ribeiro
Ao ocupar diferentes pontos de São Gonçalo do Sapucaí, a exposição responde à concentração dos circuitos culturais nas grandes cidades. A pesquisa parte da experiência de perceber como o acesso à arte contemporânea, às instituições e aos espaços de formação permanece centralizado, produzindo desigualdade de acesso e de legitimidade.
A artista afirma o interior como território de cultura, memória, linguagem e pensamento. O Bageira nasce dessa perspectiva: reconhecer o que já existe no território e criar condições para que essas histórias circulem de outros modos. “Bageira não é sobre levar arte para o interior, mas afirmar que a arte já está lá – e que ela pode ser um espaço de construção de vínculo, de leitura de mundo e de invenção de outras possibilidades de existência que podem interessar a qualquer pessoa, de qualquer lugar”, destaca.
Para Campos, a relação entre obra, cidade e público forma uma das bases da exposição. “É uma simbiose de todos esses elementos. Afinal, a cidade é constituída pelas pessoas, e o trabalho de Joyce promove o reconhecimento de São Gonçalo por sua própria comunidade”, afirma.
O curador também destaca o papel da dúvida dentro do trabalho de Joyce. Ao reunir histórias ligadas à cidade e ficções construídas pela artista, a exposição convida o público a refletir sobre memória, pertencimento e imaginação. “Essa dúvida desempenha um papel muito importante na reflexão das pessoas sobre tudo isso”, diz o curador.
Programação
A exposição Rio Que Grita poderá ser visitada de 11 de julho a 9 de agosto de 2026, em São Gonçalo do Sapucaí, Minas Gerais. Além da exposição, o projeto prevê ações educativas e atividades complementares, entre elas duas oficinas de contação de histórias e cerâmica, uma roda de conversa, quatro ativações de percurso com deslocamento de van e três ativações de percurso a pé. As ações terão classificação livre e previsão de público aproximado de 20 pessoas por atividade.
Também serão produzidos mapas interativos, distribuídos gratuitamente nos espaços expositivos, bibliotecas públicas e escolas, para orientar o público na realização dos percursos.
Sobre Joyce Ribeiro
Joyce Ribeiro é artista, educadora e historiadora. Natural de São Gonçalo do Sapucaí, Minas Gerais, vive e trabalha entre São Paulo e Minas Gerais desde 2014. É formada em História pela UEMG e pós-graduada em História, Sociedade e Cultura pela PUC-SP.
Sua pesquisa investiga a construção do imaginário cultural caipira, as contações de causos de tradição oral e suas relações com a escrita historiográfica. Em seus trabalhos, articula memória, ficção, território, oralidade e arte contemporânea, criando proposições em fotografia, vídeo, objeto, cerâmica, escrita, ação e contação de histórias.
Entre seus trabalhos recentes estão Conversas de Bageira, apresentado na Move Arte, em São Paulo; a residência artística Ouro Preto Inevitável, no Instituto de Arte Contemporânea de Ouro Preto; a exposição Afeiçoar-se, com curadoria de Nilton Campos, no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro; e participação na POSVERSO — Bienal Internacional de Poesía Experimental da Argentina. Em 2025, recebeu o prêmio do Edital Saberes Gerais, da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais, por meio da Fundação de Arte de Ouro Preto, em reconhecimento à sua atuação nas artes visuais.
Editais que estão financiando o projeto:
2026 – Edital de Chamamento Público nº 01/2026 – Seleção de projetos para recebimento de bolsas culturais de promoção, difusão, circulação, residência e intercâmbio cultural com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – PNAB (Lei nº 14.399/2022) – Governo Federal, Ministério da Cultura
Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais e
Subsecretaria de Cultura.
2026 – Edital de Chamamento Público nº 002/2026 – Projetos Culturais – Seleção de projetos para firmar termo de execução cultural com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – PNAB (Lei nº 14.399/2022) – Secretaria de Cultura de São Gonçalo do Sapucaí.
O projeto também conta com o patrocínio da EBM Contábil, empresa com sede em São Gonçalo do Sapucaí.
Serviço
Exposição: Rio Que Grita | Projeto: Bageira
Artista: Joyce Ribeiro
Curador: Nilton Campos
Abertura: 11 de julho de 2026
Horário da abertura: 10h às 13h
Período: 11 de julho a 9 de agosto de 2026
Local: São Gonçalo do Sapucaí, Minas Gerais
Atividades: exposição, oficinas, roda de conversa, ativações de percurso, mediação cultural e mapas interativos
Classificação: livre
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