As hepatites virais continuam sendo um importante problema de saúde pública no Brasil e no mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) revela que milhões de pessoas convivem com infecções pelos vírus das hepatites B e C sem saber, justamente porque essas doenças costumam evoluir de forma silenciosa durante muitos anos.
O Julho Amarelo, campanha nacional de conscientização sobre as hepatites virais, reforça a importância da prevenção, da vacinação e, principalmente, do diagnóstico precoce. Quanto antes a infecção é identificada, maiores são as chances de evitar complicações como cirrose, insuficiência hepática e câncer de fígado.
De acordo com o gastroenterologista e hepatologista Dr. Lucas Sicinato Silva, parceiro do Mater Dei Santa Clara, o grande desafio ainda é identificar a doença antes que ocorram danos permanentes ao fígado.
“As hepatites virais são conhecidas como doenças silenciosas porque, na maioria das vezes, especialmente nas hepatites B e C, a infecção pode permanecer por muitos anos sem causar sintomas. Enquanto isso, o vírus continua provocando inflamação no fígado, que pode evoluir para fibrose, cirrose e até câncer hepático”, esclarece.
Por que as hepatites virais são chamadas de doenças silenciosas?
Diferentemente de outras infecções, as hepatites B e C podem permanecer anos, ou até décadas, sem provocar qualquer manifestação clínica. Muitas pessoas descobrem a doença apenas durante exames de rotina ou quando já apresentam complicações hepáticas.
Enquanto não há sintomas, o processo inflamatório continua acontecendo no fígado de forma lenta e progressiva. Em alguns casos, a evolução leva à formação de fibrose, que pode avançar para cirrose e aumentar significativamente o risco de desenvolvimento do carcinoma hepatocelular, o tipo mais comum de câncer de fígado.
Segundo o médico, essa ausência de sintomas cria uma falsa sensação de segurança. “O principal desafio para o diagnóstico precoce é justamente essa ausência de sinais clínicos. Muitas pessoas acreditam que, por se sentirem bem, não precisam realizar exames”, explica.
Além disso, o desconhecimento sobre as formas de transmissão e sobre a importância do rastreamento ainda dificulta o controle dessas infecções.
Como ocorre a transmissão das hepatites virais?
Dr. Lucas relata que cada tipo de hepatite possui formas específicas de transmissão. A hepatite A está relacionada principalmente ao consumo de água ou alimentos contaminados e à falta de saneamento básico.
Já as hepatites B e C são transmitidas principalmente pelo contato com sangue contaminado. A hepatite B também pode ser transmitida por relações sexuais desprotegidas e da mãe para o bebê durante a gestação ou parto, quando não há prevenção adequada. Entre as principais situações de risco estão:
– compartilhamento de agulhas e seringas;
– materiais utilizados em tatuagens e piercings sem esterilização adequada;
– instrumentos de manicure ou barbear compartilhados;
– acidentes ocupacionais com material biológico;
– relações sexuais sem preservativo (especialmente para hepatite B).
Como prevenir as hepatites virais?
O gastroenterologista afirma que a prevenção depende do tipo de vírus, mas envolve medidas bastante eficazes. A vacinação é considerada a principal estratégia de proteção contra as hepatites A e B e faz parte do calendário nacional de imunização. Para a hepatite C, ainda não existe vacina, tornando a prevenção comportamental ainda mais importante. Entre os principais cuidados estão:
– manter a vacinação em dia;
– consumir água tratada e alimentos de procedência segura;
– lavar adequadamente as mãos;
– utilizar preservativos nas relações sexuais;
– nunca compartilhar objetos perfurocortantes;
– realizar tatuagens, piercings e procedimentos invasivos apenas em estabelecimentos que seguem rigorosamente normas de biossegurança.
Quem deve fazer o exame para hepatites?
Embora pessoas com fatores de risco tenham prioridade no rastreamento, atualmente recomenda-se que todo adulto realize, pelo menos uma vez na vida, a testagem para hepatites B e C, mesmo que nunca tenha apresentado sintomas.
O exame é simples, realizado por meio de coleta de sangue, e pode identificar precocemente a infecção. Entre os grupos que merecem atenção especial estão:
– pessoas que receberam transfusão de sangue antes da implantação dos testes atuais;
– usuários de drogas injetáveis ou inaladas;
– profissionais da saúde;
– pessoas vivendo com HIV;
– indivíduos com múltiplos parceiros sexuais;
– contatos domiciliares ou parceiros sexuais de pessoas com hepatite B.
Segundo o Dr. Lucas Sicinato, essa recomendação amplia significativamente as chances de diagnóstico precoce.
Hepatite C tem cura e hepatite B pode ser controlada
Nas últimas décadas, o tratamento das hepatites evoluiu de forma expressiva. A hepatite C apresenta índices de cura superiores a 95% com medicamentos antivirais de ação direta, disponíveis inclusive pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Já a hepatite B, embora ainda não tenha cura definitiva, na maioria dos casos, pode ser controlada com medicamentos que reduzem a multiplicação do vírus e diminuem significativamente o risco de cirrose e câncer hepático. Por isso, identificar a doença antes do aparecimento das complicações faz toda a diferença na qualidade de vida e no prognóstico do paciente.
Julho Amarelo reforça a importância do cuidado com a saúde do fígado
A campanha Julho Amarelo lembra que cuidar da saúde hepática vai muito além da ausência de sintomas. Realizar exames quando indicados, manter a vacinação atualizada, adotar hábitos seguros e buscar avaliação médica diante de fatores de risco são atitudes capazes de prevenir complicações graves e salvar vidas.
No caso das hepatites virais, o diagnóstico precoce continua sendo a ferramenta mais eficaz para interromper a evolução da doença e garantir tratamento no momento certo.



