FLIPES 2026 acontece de 12 a 20 de setembro, com atividades gratuitas e 80% da programação realizada por artistas e agentes culturais da própria região
São Bento do Sapucaí deixa de ser apenas cenário e passa a ser protagonista da literatura entre os dias 12 e 20 de setembro. A 14ª Festa Literária do Interior Paulista Eugênia Sereno (FLIPES) ocupa ruas, escolas, biblioteca, espaços culturais e outros pontos do município com uma programação gratuita que mistura literatura, Folia de Reis, maracatu, fandango caiçara, cinema, bordado, artesanato, gastronomia, música e cultura popular.
Mais do que trazer escritores de diferentes lugares para a Serra da Mantiqueira, a FLIPES aposta na produção cultural do próprio território: cerca de 80% das atividades são realizadas por artistas e agentes culturais da região. A programação reúne nomes como Bel Santos Mayer, Célio Turino, Cris Eich, André Kondo, André Gravatá, Lilia Guerra, Socorro Lira e Lenna Bahule ao lado de escritores, grupos culturais, artesãs e produtores locais.
A cidade como palco
A programação começa no dia 12, com cortejo da Cia Severina Pinda, contação de histórias, intervenção do Teatro Realejo, exposição e apresentação de poesia. No dia 13, a abertura oficial leva Maracatu Mantiqueira, Folia de Reis, Sucatas Ambulantes e Teatro Realejo para as ruas, seguida pela 4ª Maratona de Histórias – “Contando o Contado”.
A escolha não é apenas estética. A proposta da FLIPES é fazer com que as manifestações culturais do território sejam entendidas como parte da própria experiência literária, e não como atrações paralelas.
Literatura também acontece nas escolas rurais
Outro aspecto que diferencia a festa é a circulação pelas escolas rurais do município. No dia 14, a Cia Tayane Porto realiza contação de histórias em escolas da zona rural, dentro de uma programação que também contempla crianças e adolescentes ao longo da semana. A FLIPES atende, em média, cinco escolas públicas por edição e reúne públicos de diferentes idades e municípios da região, ampliando o acesso à literatura para além dos frequentadores tradicionais de festas literárias.
Da literatura à economia criativa
A programação também dialoga diretamente com a identidade econômica e cultural da Mantiqueira. Oficinas de bordado e estandarte, apresentações de cultura popular, gastronomia e atividades no Casarão da Memória aproximam o festival dos produtores e fazedores de cultura locais.
A Comedoria Literária, instalada no histórico Casarão da Memória, é um dos exemplos dessa integração: reúne restaurante, biblioteca comunitária e centro cultural e conecta literatura, patrimônio, comida e convivência. A própria gastronomia da região, marcada por receitas caipiras, fogão a lenha, queijos artesanais, azeites, vinhos de altitude, cogumelos e outros produtos locais, passa a fazer parte da experiência da festa.
A FLIPES recebe, em média, 2.500 pessoas por edição e já alcançou mais de 25 mil visitantes acumulados. O festival reúne entre 50 e 120 artistas por edição e movimenta, além da cultura, setores como turismo, hospedagem, alimentação, comércio e artesanato.
Uma festa que carrega o nome de uma escritora de São Bento
A identidade da FLIPES também está ligada à memória de Eugênia Sereno, pseudônimo de Benedicta Pereira de Rezende Graciotti, escritora, professora e pianista nascida em São Bento do Sapucaí em 1913. Seu romance O Pássaro da Escuridão recebeu o Prêmio Jabuti de Autora Revelação em 1966.
Ao homenagear uma escritora nascida na cidade e cuja obra registrou costumes, paisagens e modos de vida do interior brasileiro, a FLIPES estabelece uma ponte entre a memória literária da Mantiqueira e a produção contemporânea. Em 2026, essa história volta a ocupar as ruas da cidade. E a pergunta que atravessa a programação talvez seja justamente essa: o que acontece quando a literatura deixa de ser apenas um evento e passa a fazer parte do território? A resposta estará em São Bento do Sapucaí entre 12 e 20 de setembro.
Eugênia Sereno: a escritora que transformou uma cidade da Mantiqueira em literatura
Antes de dar nome a uma festa literária, Eugênia Sereno foi uma menina e depois professora de São Bento do Sapucaí. Nascida em 13 de setembro de 1913 como Benedicta Rezende, ela descendia de uma das famílias fundadoras do município e passou parte importante de sua vida em contato direto com a população da cidade e, especialmente, com as comunidades da zona rural, onde lecionou.
Esse contato com a vida interiorana seria fundamental para sua literatura. Em 1940, Benedicta casou-se com o escritor Mário Graciotti e mudou-se para São Paulo. Foi na capital, inserida em um círculo mais amplo de escritores e intelectuais, que desenvolveu sua obra literária sob o pseudônimo de Eugênia Sereno.
Seu único romance publicado, O Pássaro da Escuridão, lançado em 1965 pela José Olympio, nasceu dessa memória do interior. A obra retrata o cotidiano de uma pequena cidade e seus personagens, costumes e modos de vida, transformando uma experiência aparentemente local em matéria de literatura brasileira.
No ano seguinte à publicação, Eugênia recebeu o Prêmio Jabuti na categoria Literatura Adulta – Autor Revelação, uma das principais distinções literárias do país. O próprio registro oficial do Prêmio Jabuti confirma a premiação de O Pássaro da Escuridão em 1966. E há algo especialmente interessante nessa história: a escritora não escreveu sobre um interior abstrato. Ela conhecia aquele território por dentro. A experiência como professora da zona rural e sua vivência em São Bento do Sapucaí ajudaram a formar o olhar que depois transformaria a pequena cidade em universo literário.
Eugênia morreu em São Paulo, em 3 de maio de 1981. Hoje, seu nome permanece ligado à cidade natal e à literatura produzida a partir do interior paulista. A FLIPES recupera justamente essa dimensão de sua trajetória ao levar seu nome para uma festa que propõe colocar literatura, memória, cultura popular e produção artística local no centro da vida cultural da Mantiqueira.
Assim, existe uma espécie de círculo na história: uma mulher que saiu de uma pequena cidade da Serra da Mantiqueira, levou aquela paisagem e aquelas pessoas para a literatura brasileira e, décadas depois, empresta seu nome a um festival que busca fazer novamente do território matéria de criação.
SERVIÇO
4ª Festa Literária do Interior Paulista Eugênia Sereno – FLIPES 2026
Pré-abertura: 12 de setembro de 2026
Festival: 13 a 20 de setembro de 2026
Local: São Bento do Sapucaí (SP)
Entrada: gratuita
PROGRAMAÇÃO FLIPES 2026
Entrada: Gratuita.
SÁBADO — PRÉ-ABERTURA | 12 DE SETEMBRO
10h — Cortejinho
Com a Cia Severina Pinda.
14h — Lançamento de livro
Com Maria Cininha.
16h — Contação de histórias
Com a Cia Severina, no Casarão da Memória.
17h — Intervenção pelas ruas
Com o Teatro Realejo.
18h — Abertura da exposição “Meu Mundo de Papel”
Com Eunice Copy.
20h — Jazzida
Apresentação Poesia Arcaica.
DOMINGO | 13 DE SETEMBRO
10h — Abertura e cortejos
Maracatu Mantiqueira, Folia de Reis, Sucatas Ambulantes e Teatro Realejo — Maria Clara, em intervenção pelas ruas da cidade.
13h — Lançamento do livro “Poesia”
Com Célio Turino.
14h — Maratona de Histórias — “Contando o Contado”, 4ª edição
Com Cia Mapinguary, Lucas Bernoldi, Cia Severina, Teatro Realejo e Fio da Meada.
19h — Apresentação
Com Zenilda Lua e Marcelo.
SEGUNDA-FEIRA | 14 DE SETEMBRO
9h — Contação de histórias
Circulação pelas escolas rurais, com a Cia Tayane Porto.
11h — Intervenção
Com o Teatro Realejo, no Largo da Matriz.
14h — Filme e Prosa
Com o escritor e cineasta Ernesto e a Produtora de Cinema Oratório.
18h — Encontro com Bel Santos Mayer
Debate sobre biblioteca comunitária, sustentabilidade e IBEAC, com mediação de Giovanna Santana, superintendente técnica.
20h — Apresentações artísticas
Culminância das Ações Formativas em Arte.
TERÇA-FEIRA | 15 DE SETEMBRO
10h — Oficina de estandarte literário
Com Dulce Marchioro.
14h — Teatro de Bonecos de Tiradentes
(Informações sobre a apresentação a confirmar.)
18h — Exibição do filme “BDL — Boca de Lobo” e bate-papo
Com participação de diretor de cinema e Rogério Nunes, da Produção Karma Tique.
21h — Recital
Músicas de cinema.
QUARTA-FEIRA | 16 DE SETEMBRO
14h — Oficina “Livro 12 Dias com a Minha Avó”
Com Cris Eich.
17h — Lançamento de livro
Com Tarcísio Bregalda, com mediação de Severino Antonio.
18h — Palestra com Nelson Screnci
Sobre livro-objeto, livro de artista e exposição de livros, com Joubert.
19h — Lançamento de livro
Com José Rui, com mediação de Benilson Toniolo.
20h — Fandango caiçara
Apresentação do Grupo Quebra Chiquinha.
QUINTA-FEIRA | 17 DE SETEMBRO
Visitação de escolas
Horário a confirmar.
10h — Contação de histórias
Com Izildinha.
14h — Cadernos Negros
Com Cosme.
18h — Encontro PELLLB — Plano de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas
Participação de representantes das Bibliotecas RA e do SJC — PELLLB, com debate sobre direito à leitura.
21h — Show
Com Marcel.
SEXTA-FEIRA | 18 DE SETEMBRO
10h — Oficina de bordado
Com Maria Cipriano.
14h — Encontro com André Kondo
Conversa sobre o Prêmio Jabuti 2025, o livro O Silêncio de Kazuki e o relacionamento entre pai e filho.
17h — Encontro com Vania Coelho.
18h — Lançamento do livro “Goela Seca”
Com Jô Freitas.
20h30 — Show “Carolina Maria de Jesus”
Com Socorro Lira.
SÁBADO | 19 DE SETEMBRO
11h — Projeto Mesa Ancestral
Atividade dedicada à comida afetiva.
14h — Lançamento do livro “Cultura Popular no Vale”
Com Jaqueline.
14h — Show “Brinca Brasil”
Com a Cia Bola de Meia.
16h — Encontro com André Gravatá.
19h — Encontro com Lilia Guerra.
20h30 — Show
Com Lenna Bahule.
DOMINGO | 20 DE SETEMBRO
10h — Roda de conversa “Será que meu filho, minha filha é escritor ou escritora?”
Com a Editora Amarelinha e escritores infantojuvenis, em uma atividade voltada às crianças.
14h — Mesa sobre ilustração
Com Cris Eich.
16h — Encerramento — Samba de Marias
Tributo às mulheres sambistas.



