Escritor mineiro Paulo Franco, o “Shakespeare de Uberlândia”, tem trajetória literária reconhecida pela Folha e busca espaço na Wikipédia

Com mais de 60 livros publicados e acervo gratuito de 750 textos, autor do Triângulo Mineiro tenta consolidar notoriedade para ingresso na enciclopédia virtual

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Em fevereiro de 2022, o escritor mineiro Paulo Franco, 58, ganhou as páginas da Folha de S.Paulo com um título que passaria a definir sua produção literária: “Shakespeare de Uberlândia”. A alcunha, cunhada pelo colunista Gregório Duvivier, não era apenas uma metáfora afetiva — sustentava-se sobre uma obra que, até então, somava dezenas de títulos publicados de forma independente e, em grande parte, gratuita.

Dois anos depois, Franco vive um novo capítulo: tenta ingressar na Wikipédia, a enciclopédia virtual mais acessada do mundo. Uma página em seu nome está em processo de validação na plataforma, o que exigirá dos editores voluntários a comprovação de que o autor mineiro preenche os critérios de notoriedade exigidos pela comunidade — notadamente, a cobertura substantiva e independente da imprensa.

O título que virou selo

O epíteto “Shakespeare de Uberlândia” nasceu em uma crônica de Duvivier na Folha. O texto narrava a história de Franco, um autor do interior mineiro que, sem editora ou marketing, acumulava centenas de poesias e textos de autoajuda disponíveis gratuitamente na internet. “Ele não queria vender livros. Queria apenas que lessem”, escreveu o colunista.

A partir dali, a expressão passou a ser utilizada pelo próprio autor e por veículos regionais como síntese de sua trajetória. A Folha, um dos principais jornais do país, ofereceu assim o principal lastro de reconhecimento público que Franco hoje apresenta à comunidade wikipedista.

Obra pulverizada e acesso gratuito

Natural de Uberlândia e com raízes na tradicional família Franco de Ituiutaba, o escritor começou a escrever na adolescência. Em vez de buscar grandes editoras, optou por um caminho descentralizado: publica seus livros na Amazon — são 65 títulos até o momento, entre poesias e autoajuda — e mantém um blog onde disponibiliza mais de 750 textos integralmente de graça.

A estratégia, incomum num mercado editorial que frequentemente privilegia o acesso restrito, rendeu-lhe leitores dispersos pelo país, mas ainda pouca penetração nos circuitos acadêmicos e críticos tradicionais.

“A notoriedade não se busca por vaidade, mas para que a obra ganhe voz e possa servir a mais pessoas”, afirmou Franco, em comunicado. “Cada livro vendido, cada poesia lida gratuitamente, é um passo nessa caminhada.”

Presença na imprensa regional

Além da produção literária, Franco mantém duas colunas ativas na imprensa do Triângulo Mineiro: uma na Gazeta do Triângulo, intitulada “Poesias e Autoajuda”, e outra no Portal Paranaíba Mais, sob o título “Ponto de Vista”. Ambas têm periodicidade semanal e abordam temas que mesclam crônica do cotidiano e reflexão pessoal.

É justamente essa presença na mídia regional, combinada à menção nacional da Folha, que seus apoiadores acreditam ser suficiente para atender aos critérios da Wikipédia. A enciclopédia, no entanto, costuma rejeitar fontes primárias — como releases ou o próprio blog do biografado — e privilegia reportagens independentes que analisem a obra com distanciamento crítico.

O desafio do verbete

A página em construção pode ser encontrada na plataforma por meio da busca pelo nome completo do autor. Até o momento, trata-se de um esboço, ainda sujeito à avaliação de editores voluntários. Caso seja aprovada, Franco passará a integrar o restrito conjunto de escritores vivos do interior mineiro com verbete próprio na enciclopédia.

Caso contrário, seu caso reacenderá um debate recorrente na comunidade wikipedista: o que define, afinal, a relevância de um autor — o selo da grande imprensa, a capilaridade de sua obra, ou a combinação de ambos?