Morte de atriz brasileira Titina Medeiros acende o alerta para o câncer de pâncreas, um dos tumores mais agressivos e silenciosos

Especialista orienta sobre sintomas discretos e avaliação médica regular

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A recente morte da atriz da Globo, Titina Medeiros, vítima de câncer de pâncreas, reacendeu o alerta sobre uma doença que costuma evoluir de forma silenciosa e agressiva. Apesar de representar cerca de 2% dos diagnósticos de câncer no Brasil, o tumor pancreático responde por aproximadamente 4% das mortes pela doença, devido ao diagnóstico tardio na maior parte dos casos, segundo o Instituto Nacional do Câncer, no Brasil. Estimativas internacionais mostram que grande parte dos casos é diagnosticada tardiamente, quando as possibilidades de cura são menores.

Segundo Eduardo Pacheco, cirurgião do aparelho digestivo e chefe da Cirurgia Geral da Hapvida em Ribeirão Preto (SP), o câncer pancreático apresenta a mais alta taxa de mortalidade dos principais cânceres e é um dos poucos cânceres em que a sobrevida não apresenta melhora substancial acima dos 40 anos de idade. “Os fatores de risco são limitados, os sintomas iniciais são discretos e o diagnóstico geralmente ocorre em fases tardias, o que explica suas altas taxas de mortalidade, realidade que permanece praticamente inalterada nas últimas décadas”, justifica.

Embora tenha dimensões discretas – em média, o comprimento da palma da mão – o pâncreas exerce duas funções essenciais ao organismo: participa do controle da glicemia ao produzir hormônios como a insulina e, ao mesmo tempo, libera enzimas digestivas responsáveis por quebrar gorduras, proteínas e carboidratos no intestino delgado, permitindo que os nutrientes sejam corretamente absorvidos. “Mesmo assim, sua relevância passa despercebida até que alguma alteração aparece. Entre as condições que podem afetá-lo estão diabetes, pancreatites, fibrose cística e o câncer pancreático, considerado um dos tumores mais letais”, informa o médico.

No Brasil, especialistas têm intensificado o alerta para a doença. Para Eduardo Pacheco, a combinação entre o comportamento silencioso do câncer e a complexidade anatômica do pâncreas é determinante para o diagnóstico tardio. “O órgão fica localizado profundamente no abdômen, e a maior parte dos sintomas iniciais é vaga: um incômodo abdominal, cansaço, perda de apetite. Quando sinais mais evidentes surgem, como icterícia ou perda de peso acentuada, o tumor geralmente já avançou e pode ter atingido estruturas próximas”, explica.

Os sinais que demandam atenção incluem dor contínua na região abdominal, perda de peso sem explicação, mudanças no hábito intestinal, náuseas persistentes, além de alterações mais específicas, como pele e olhos amarelados, fezes claras e urina escura. “Os sintomas também podem ser confundidos com outras patologias gastrointestinais, inclusive dores lombares, adiando a investigação específica ao órgão. Portanto, nenhuma mudança persistente deve ser ignorada. Muitas vezes, o corpo fala de forma sutil, e escutá-lo pode fazer toda a diferença”, reforça o médico.

O especialista destaca que alguns indivíduos têm maior risco de desenvolver a doença, entre eles, pessoas acima de 60 anos, fumantes, indivíduos com pancreatite crônica, histórico familiar de câncer pancreático, obesidade ou diabetes de longa evolução. “Há também situações de predisposição genética, embora representem minoria. O importante é saber que parte desses fatores pode ser modificada. Parar de fumar, manter hábitos saudáveis, controlar o peso e tratar doenças metabólicas são medidas que reduzem o risco.”

Quando há suspeita, exames como tomografia, ressonância magnética e ultrassonografia endoscópica e a dosagem de marcadores tumorais ajudam na investigação. No entanto, não existe rastreamento populacional específico para a doença, o que evidencia a importância do check-up anual. “O acompanhamento clínico é uma ferramenta indispensável. Ele permite identificar alterações metabólicas e inflamatórias que podem sinalizar risco aumentado e antecipar diagnósticos”, afirma o médico.

Apesar da agressividade, há possibilidades de tratamento. A cirurgia continua sendo a opção mais eficaz quando o tumor é identificado em estágio inicial. Em outros casos, quimioterapia, radioterapia, terapias-alvo e imunoterapia fazem parte das estratégias terapêuticas. “A medicina tem avançado, especialmente com abordagens menos invasivas e tratamentos personalizados. Estudos recentes mostram resultados mais promissores quando o manejo é iniciado precocemente. Por isso, fazer exames regularmente é importante e tratamentos em centros especializados em alta complexidade”, comenta.

Além da conscientização sobre o câncer pancreático, instituições e profissionais têm ampliado o debate sobre condições associadas, como a insuficiência pancreática exócrina, quadro em que o órgão não produz enzimas suficientes para a digestão, gerando sintomas como diarreia, perda de peso e deficiência nutricional. Para Eduardo Pacheco essa discussão é fundamental. “Muitas doenças do pâncreas são interligadas. Conhecer seus sinais, compreender o papel do órgão e buscar ajuda especializada no início de qualquer desconforto é essencial para evitar complicações e melhorar a qualidade de vida.”

Para finalizar, o especialista deixa um recado direto: “O câncer de pâncreas é silencioso, mas a prevenção não precisa ser. Informar-se, manter hábitos saudáveis e procurar atendimento ao primeiro sinal de alerta são atitudes que salvam vidas.”