Evolução ou Extinção: A Nova Regra da Gestão

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Nas empresas, nada é estático. Cultura, liderança, processos, reputação: tudo está em disputa o tempo todo. A lógica é parecida com a da seleção natural. Organizações atuam como organismos vivos, pressionados por um ambiente que exige ajuste constante e pune quem insiste em operar no modo antigo. Não é figura de linguagem; é funcionamento. “Empresa que não se adapta não perde só mercado. Perde legitimidade, perde gente boa e perde relevância social”, afirma David Braga, presidente da ABRH-MG e CEO da Prime Talent Executive Search. Segundo ele, a agenda de pessoas deixou de ser “apoio” e passou a ser “sobrevivência do negócio”.

Esse olhar muda a forma de fazer gestão. No lugar da ideia de empresa-máquina, ou seja, previsível, controlável, organizada em caixinhas, entra a empresa-ecossistema: viva, dinâmica, cheia de tensão interna, negociações de poder, forças que cooperam e forças que competem. Comportamentos individuais, como liderar, engajar ou resistir, não são apenas “jeitos de cada um”: são variáveis que definem se a organização vai sustentar competitividade. Há base nisso. Estudos de comportamento humano mostram que características como senso de justiça, reciprocidade e capacidade de criar alianças fazem diferença direta em coesão de grupo e resposta à pressão externa. Em linguagem prática: a forma como as pessoas se relacionam entre si afeta lucro, velocidade de decisão e reputação.

Essa transformação acontece em camadas que se retroalimentam. Tudo começa no indivíduo, onde cada profissional traz um modo próprio de trabalhar, decidir e se conectar. Quando esse modo funciona, ele vira processo interno, política, rito de gestão. A soma desses processos se torna vantagem competitiva (ou fragilidade) quando a empresa disputa espaço no mercado. As práticas que funcionam passam a ser copiadas por outras empresas, cobradas por investidores, exigidas por clientes e até reguladas pelo governo. E isso volta para dentro como pressão: muda o que se espera de cada líder, de cada área, de cada pessoa. Ou seja: pessoas moldam empresas; empresas moldam o setor; o setor define novas regras; e as regras voltam e moldam as pessoas. É um ciclo contínuo, e ninguém está fora dele.

O comportamento humano dentro da empresa; quem coopera, quem disputa, quem influencia, não é aleatório. Estudos em psicologia evolutiva mostram que traços como liderança, reciprocidade e cooperação têm base biológica e moldam como as pessoas se organizam, criam alianças e respondem a pressão. Traduzindo: dinâmicas de equipe não são só “questões de perfil”, mas parte da própria sobrevivência do negócio.

Competitividade hoje não é só ganhar mercado. É permanecer jogando. Isso exige uma combinação de resultado e reputação. Não basta performar bem em um trimestre se, no processo, você destrói relações estratégicas com talentos críticos, fornecedores, território ou comunidade. “Um negócio só é sustentável de verdade quando entrega resultado sem esgotar as pessoas que tornam esse resultado possível.”, diz Alessandro Ferreira, diretor executivo do Grupo Fleury. Esse raciocínio empurra o tema ESG para fora do discurso: transparência, inclusão, segurança e coerência entre fala e prática deixam de ser cosmética de marca e passam a ser barreira de proteção do negócio.

Nesse cenário, os profissionais de Capital Humano precisam atuar como mecanismo adaptativo da empresa. Ele precisa funcionar como radar e como tradutor. Radar, para captar sinais de risco (clima, reputação interna, pressões regulatórias, fadiga operacional, atratividade de talentos) antes que virem crise. Tradutor, para transformar esses sinais em ajustes concretos de prática, liderança e governança. “RH maduro não é o que apaga incêndio rápido. É o que antecipa o incêndio e cria capacidade interna de resposta”, afirma Braga. Em outras palavras: vantagem competitiva hoje é a velocidade com que a empresa aprende e a capacidade de manter esse aprendizado vivo como cultura, não só como projeto pontual.

Isso leva a um ponto sensível: nem toda prática que nasceu dentro da empresa merece continuar existindo. Rotinas, políticas, fórmulas antigas de gestão e ritos “porque sempre foi assim” precisam ser testados contra impacto real. Se ajudam a proteger valor, reduzir risco e acelerar decisão, sobrevivem. Se consomem energia política e orçamento sem retorno concreto, precisam sair de cena. “As organizações têm dificuldade de encerrar rituais que já não fazem sentido. Isso custa dinheiro e custa foco”, aponta Ferreira.

O recado final é de governança, uma vez que os Conselhos e C-level precisam parar de olhar a empresa apenas como organograma e passar a enxergar como organismo em evolução. Isso significa permitir ajustes de rota antes da crise, aceitar conflito produtivo, recompensar quem traz alerta consistente e não só quem traz boas notícias, e garantir que agenda de gente e agenda de negócio sejam a mesma agenda. Porque, no cenário atual, não sobrevive quem é o mais rígido. Sobrevive quem consegue aprender, corrigir e seguir relevante sem perder o que tem de mais caro: credibilidade, talento e licença social para operar.