O Brasil registrou mais de 1,6 milhão de internações por acidentes em 2025, somando todas as faixas de idade. Entre crianças e adolescentes de até 14 anos, foram 128,5 mil hospitalizações mapeadas pelo Projeto Criança Segura, da ONG Aldeias Infantis SOS, a partir de dados do DataSUS: as quedas responderam por 55 mil casos e queimaduras, por 25 mil.
Minas Gerais aparece em segundo lugar em números absolutos, com 12.183 internações, atrás apenas de São Paulo. Mais de 90% desses acidentes poderiam ser evitados, estima o levantamento. Os que acontecem se resolvem, ou se agravam, nos primeiros minutos. É esse intervalo que o Dia Mundial dos Primeiros Socorros, neste sábado (12/9), coloca em discussão.
O que precisa estar na caixa
Segundo o farmacêutico e consultor técnico da Araujo, Hairton Guimarães, uma farmacinha útil é mais simples do que a maioria das pessoas imagina: gaze estéril, esparadrapo ou fita microporosa, curativos adesivos, ataduras, soro fisiológico, antisséptico à base de clorexidina, termômetro digital, luvas descartáveis e bolsa térmica.
“A gaze é de uso único. Aberta ou aplicada, vai para o lixo. Reaproveitar uma gaze é introduzir contaminação em uma ferida que estava limpa”, diz Hairton Guimarães.
Os medicamentos são a parte mais sensível
Analgésicos como dipirona e paracetamol, além de antialérgicos como loratadina, podem compor a caixa, mas com critério diferente do resto. Pesquisa do ICTQ com o Instituto Datafolha aponta que 86% dos brasileiros se automedicam, cerca de 138 milhões de pessoas.
“Antes de usar qualquer medicamento por conta própria, converse com um médico ou farmacêutico. Existem contraindicações e interações com o que a pessoa já toma, e isso não aparece na bula de forma óbvia”, orienta o farmacêutico.
Onde guardar e por que conferir a validade
Manter cada medicamento dentro da caixa original facilita conferir nome e data de vencimento sem depender da memória. O local deve ser fresco, seco e fora do alcance de crianças – armário alto e, de preferência, com chave. Vale a regra de nunca apresentar remédio a criança como doce ou como algo que faz crescer.
O que sai da farmacinha também tem destino próprio. Medicamento vencido não vai para o lixo comum nem para a pia. A rede de logística reversa recebeu 1.011,54 toneladas de medicamentos e embalagens em 2025, segundo a Abrafarma – 30% mais que no ano anterior e o primeiro ano acima de mil toneladas. Hoje são 7.780 pontos de recebimento no país, a maioria em farmácias.
“Devolver o que venceu é parte do cuidado. Antibiótico descartado na pia contribui para resistência bacteriana e comprimido no lixo comum pode acabar na mão de uma criança”, diz Hairton Guimarães.
Os erros que pioram o quadro
Aplicar álcool ou água oxigenada diretamente em ferimento aberto, colocar creme dental em queimadura, encostar gelo na pele e usar algodão sobre corte – que solta fibras na ferida – estão entre os erros mais comuns. Manteiga e pó de café em queimadura seguem a mesma lógica: atrasam o atendimento e dificultam a avaliação da lesão depois.
Quando o caso não é para resolver em casa
Ferimentos profundos ou muito abertos, sangramento que não cessa após alguns minutos de compressão, queimaduras extensas ou com bolhas, sintomas fortes e persistentes, e qualquer machucado em rosto, pescoço, região genital ou próximo aos olhos exigem avaliação médica. Em suspeita de intoxicação, o atendimento deve ser imediato. É importante levar a embalagem ou uma foto do produto ingerido.
“Farmacinha bem montada serve para atravessar os primeiros minutos com segurança. Ela não substitui o atendimento, e insistir em resolver em casa é o que costuma transformar um caso simples em um caso grave”, conclui Hairton Guimarães.



